Ah! Nosso primeiro contato, como eu poderia esquecer. Naquele dia chovia, e eu voltava para casa andando após uma festa , estava parcialmente ébrio, o suficiente para que não notasse sua presença. Ela já me espreitava havia muito tempo, mas eu ainda não sabia disso. Passados alguns minutos, estava mais próximo de casa , a noite ia lenta e o som da chuva se tornava marcante aos meus ouvidos graças ao efeito da bebida. Eu gostava de sentir aquela sensação. Se eu houvesse notado seus olhos sobre mim talvez as coisas tivessem sido diferentes.

A enxurrada lavava o chão e eu caminhava na beira da avenida, não estava tombando, conseguia caminhar perfeitamente mas, meu chinelo grudava entre uma poça e outra me fazendo perder o equilíbrio. Foi então que ao atravessar a rua isso me ocorreu novamente, o pé preso a uma poça com lama e um chinelo que grudava incessantemente me levou de encontro ao chão. Uma luz forte e rápida, foi tudo o que consegui enxergar vindo na minha direção, e então ela...

Seus olhos eram fundos, de um negro tão escuro como uma noite sem luar, ela me encarava estendendo a mão querendo prestar socorro, eu não conseguia estender a mão, estava sem forças. Sua voz era macia, muito baixa, e não me recordo de ter visto seus lábios se moverem só sabia que o som vinha de lá. Ela docemente pedia para me ajudar, disse-me que se eu a tocasse num passe de mágica teria uma surpresa, sua mão ia ficando cada vez mais próxima de mim,  finalmente tomei coragem e toquei.

Foi aí que caí em mim, e sabia então quem era ela. Como num passe de mágica minha vida passou feito um
filme de curtíssima metragem sob minha vista. Consegui lembrar-me dos melhores momentos da minha vida, das pessoas que eu amo e de súbito me gelou o corpo, não no sentido literal da palavra, mas de medo. O passe de mágica foi se acabando e eu,cada vez mais convicto. Não sabia se foi assim com todo mundo que teve esse mesmo encontro, que embora esperado é totalmente inoportuno. Vos digo pois que sua cor  é negra, seu alimento é alma e sua bebida é medo. Ela não marca hora, nem lugar, só soube disso depois de ouvir o último badalar do sino da minha vida, então ela tomou-me nos braços e saiu me carregando por aquela rua fria e inóspita.  A Dona morte  pode até tardar, mas é certo que ela chega.
Ilustração de Joe Sorren


2 Comentários

  1. Como diz o ditado, ela "tarda mas não falha".

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  2. A única certeza.

    Dinha obrigada pelas visitas e palavras em meu blog.
    Muito lindo ficou o seu!

    Beijos!

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Estou respondendo os comentários por aqui mesmo,aproveita e deixa seu link para que eu possa conhecer seu espaço também ^^. Lazy Beijos